sábado, 8 de agosto de 2020

MÃE, O CACETE

 DE Ivana Arruda leite

ivanaleite@uol.com.br

Mãe é uma cruz na minha vida. Nunca gostei da minha e duvido que as pessoas gostem tanto da sua quanto dizem. Quando eu estudava no colégio das freiras, elas falavam que era até pecado desgostar da mãe desse jeito. Mãe é coisa sagrada. Que eu rezasse pra mãe de Jesus pra ver se ela me ajudava. Rezei porra nenhuma. Não gosto da mãe de ninguém, nem da mãe de Jesus. Mãe é sinônimo de atraso, degradação. Mãe deforma a cabeça da gente. O mundo seria outro sem mães. Deus que se virasse pra fazer as pessoas nascerem de outro jeito. Repolhos, bromélias. Os filhos seriam todos órfãos, órfãos e felizes. Ele não precisou de mãe pra criar a humanidade. A mãe veio muito depois, por castigo.
A minha dava cada beliscão, batia de chinelo, puxava orelha, dava tapa na cara, cascudo com o nó dos dedos. Isso é coisa que se faça a uma filha? A única que ela teve!
Eu queria uma mãe de quadrinho, dessas que trocam os filhos com cuidado, dão beijo na testa e fazem o nenê nanar, contam histórias, seguram na mão pra atravessar a rua, cortam as unhas do filho (a única vez que a minha fez isso, quase me arrancou a ponta do dedo). Dizem que existe. Mas eu? Que ficasse cagada, mijada e com a cara cheia de ranho até a hora que ela bem entendesse. Tinha mil coisas pra fazer antes de me socorrer. Tive que aprender tudo sozinha: que tomada dá choque, que faca corta, que osso de frango engasga (eu mesma enfiei o dedo na garganta e tirei o osso de lá quando isso aconteceu), que mulher menstrua, que homem velho gosta de abusar de criança. Ela tinha um namorado bem velho. Era seu patrão na fábrica de arame. Eu tive a pior mãe do mundo.
Quando saíamos juntas, ela me mandava correr:
- Eu vou embora e te largo aí.
Se eu chorava, ela me dava um safanão e me mandava calar a boca. Se eu gostava de um programa de televisão, ela mudava de canal. Se me via feliz, me mandava pro quarto.
- Vai rir na cama.
Minha mãe detestava me ver contente. Talvez por isso nunca me deu presente, nem no Natal nem no aniversário. Um dia me perguntou:
- Que dia mesmo você nasceu?
Dizia que não tinha dinheiro, mas pra ela não faltava nada: rouge, batom, pó de arroz, tinha de tudo na penteadeira dela. Até perfume francês. Na minha, só talco Gessy e uns toquinhos de batom que ela não usava mais.
Quando eu ficava doente, me tacava um comprimido na garganta e apertava o nariz pro comprimido descer logo. Me esquecia na cama com termômetro no braço. Eu que adivinhasse a febre, quando ainda nem sabia ler.
Nunca foi a minha escola, dizia que não tinha tempo a perder.
Pouco se lhe dava saber onde eu estava.
Na rua, as meninas diziam:
- Tenho que ir embora, minha mãe tá me esperando, minha mãe vai ficar brava, a janta tá pronta.
Eu só voltava pra casa porque não tinha mais ninguém pra brincar. Se eu sumisse ou morresse, acho que ela nem ia perceber.
Minha mãe era bonita, uma morena vaidosa, gostosa, diziam. Morenona de cair o queixo. O patrão vinha buscá-la todo dia num cadillac bordô. Ela ia trabalhar de salto alto, meia de seda, tailleur, blusa de tafetá, toda perfumada, penteada, de colar de pérolas, anel de brilhante e pulseira de bola.
Minha mãe e o patrão dela iam de carro pro trabalho.
Um dia ela chegou puta da vida dizendo que tinha sido despedida. A partir desse dia, a vida dela perdeu a graça. Desleixou, descuidou, ficou pior ainda.
Eu tinha 15 anos e tive que cuidar de tudo sozinha. Da casa e dela. Toda hora tava de cama. Até banho eu tinha que dar. Aposentou-se por invalidez.
Quando terminei o ginásio, fiz curso de auxiliar de enfermagem e entrei no Hospital das Clínicas. Acabei fazendo faculdade, hoje sou enfermeira-chefe.
Minha mãe ficou encravada na cama muito tempo até que um dia amanheceu morta. Finalmente eu estava órfã.
Dei todos os móveis do quarto dela, as roupas, e aluguei o quarto para um calouro da medicina: o Rui, 20 anos, recém-chegado à capital.
Os pais dele ficaram felizes ao saber que ele moraria na casa de uma senhora tão distinta.
Logo nos primeiros dias me engracei com ele. Chegou a minha vez, pensei. E vai ser com esse. Eu fazia comidinhas que ele gostava, jantava com ele, aparecia de camisola na sala, tomava banho de porta aberta, dormia de perna aberta com a porta aberta. Ele passava pelo corredor e me espiava com o rabo do olho. No frio, eu ia ver se ele estava coberto, dava beijo na testa, na boca, abraçava, deitava junto. Eu sei agradar um homem, sem nunca ter aprendido.
Ontem ele trouxe um amigo pra jantar.
- A senhora é mãe do Rui? – perguntou ao me ver na sala.
- Mãe, o cacete – respondi atordoada. Sou a mulher que dorme com ele, que faz a comida dele, que cuida da roupa dele, da casa dele.
- Praticamente uma mãe – o cínico completou.
- Deus me livre ser mãe do Rui. Mãe é a maior desgraça na vida de uma pessoa. É por causa das mães que tem tanta gente infeliz.
O moço ficou assustado e pediu desculpas. Quando ele foi embora, perguntei pro Rui se ele também me via como mãe, mas ele disse que não, nunca!
- Até porque, eu gosto muito da minha mãe – ele disse me beijando a boca com o ardor de sempre. Depois perguntou curioso: e pai, o que é um pai pra você?



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Primeira Paixão

Eu era apenas uma menina, 

E ele um herói às avessas...


Se apaixonou como um lorde


E fez de mim a sua princesa. 


Me amou por todos os dias


Desde o primeiro encontro


E me levou pra dentro de sua vida


E a mudou, por mim...


Era desengonçado, desalinhado, desnorteado...


Mas, sabia me impressionar


Gostava de cantar Raul


E vivia sua louca metamorfose ambulante


Ele era meu sol (Solano)


Eu, a sua lua encantada


Me roubou numa tarde ensolarada


para me fazer andar por praias de puro prazer


Ilhéus conheceu nossa saga


Mas nem Gabriela foi tão amada


Revolucionou seu universo pessoal


Me deu um filho


E resolveu ser gente grande


Saudades do seu jeito protetor


Das risadas deselegantes


Dos carinhos sinceros


Do amor dedicado


E da presença roubada!


Pra sempre, minha melhor paixão!




sábado, 28 de novembro de 2015

Deles e de mim...

Eles pensavam que eu gritava
quando eu falava de minha dor

Deduziram que eu não me importava
quando eu cultivava a liberdade e o amor

Falaram que eu não impunha a lei
quando eu buscava o florescer da ética 

Achavam que eu tinha que agir com a razão
quando eu buscava as respostas em meu coração  

Queriam um mundo regido pela força
quando eu tentava humanizar as relações

Diziam que era preciso usar de autoridade voraz
Quando eu cria na responsabilidade e buscava a paz

Tentaram entristecer o meu olhar
Quando o que eu queria, era apenas ensinar!




domingo, 7 de junho de 2015

SORRIR PRA VIDA


Eu sei que haverá dias tristes
E que a vida nem sempre sorrirá para mim. 
Mas eu...
Eu sorrirei para ela, descaradamente
E debocharei da sua seriedade
E Inventarei caretas para torna-la engraçada, 
Sorrirei dos seus desencantos
E acreditarei em suas simplicidades:
No mal que vai passar, 
No bem que vai vencer 
E no amor que sempre triunfará. 
Nas manhãs nubladas, vou vestir minha roupa de sol
Nos dias de chuva. vou me banhar de esperança. 
E nas noites cansadas, vou balançar meus sonhos 
numa rede de pano, presa na varanda. 
E vai ser sempre assim:
De riso em riso 
Até a morte chegar
E nesta hora, também vou sorrir 
Sorrir não. . . Vou gargalhar!

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Dom

Tivesse eu o dom de eternizar
eternizaria o riso
Para ecoar gargalhadas
Numa tarde de trovão.
Tivesse eu o dom de profetizar
profetizaria a sorte,
e gotas de desejos
espalhadas ao vento.
Tivesse eu o dom de cantar
Cantaria para morte
a fim de conquistar-lhe a amizade
E convecê-la a ser fiel a mim.
Mas o meu dom é o de poetizar!
E timidamente mantenho
versos e canções
engavetadas dentro de mim.
Fabiola Sampaio, 18/05/2014

domingo, 12 de abril de 2015

Meus versos

Queridos versos
Quero marcá-los sob esta superfície
Como tatuagem.
E eternizar-te em meu corpo
Que, sedento de desejos,
Clama por uma gota de inspiração!
Gostaria muito que Bandeiras e Olavos
Fossem cá lidos...
Entretanto, meus versos caem fracos:
São versos de brinquedos
Que trilindram pelo chão
Voam ao encontro das estrelas
E tresloucados,
buscam ouvidos amigos
e sobras de amor e paixão!
Não são versos com a métrica perfeita
Ao traço do ourives, caro Bilac;
Tampouco poesias de Passárgada,
Em linhas endiabradas
Onde mulheres perfeitas seduzem
E destilam prazer!
São versos solitários
“De angústia rouca”
De quem dispensa a rima
De quem acredita e grita
E faz da poesia
a irmã gêmea da noite
Filha da dor
Amante do açoite

Louca de amor!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O céu do Ano Novo


Todas as noites de Ano Novo, bem perto da meia noite, 
íamos para o quintal de casa e ouvíamos minha mãe dizer: 
"- Dê adeus ao ano velho, tá chegando o ano novo!" 
Eu olhava para o céu e via as nuvens caminhando entre as estrelas, 
e, na minha imaginação de menina sapeca, 
as nuvens eram quem levavam aquele ano velho embora!
eu olhava por longo tempo para o céu 
até que as nuvens fossem todas embora e o céu se iluminasse, 
só com a presença das estrelas. 
Daí eu pensava: "O ano novo chegou!!!" 
 
Quando meus filhos eram bem pequeninos, 
repeti este ritual de infância inúmeras vezes, 
mostrando-lhes as nuvens do ano velho e
as estrelas do ano novo.
Acredito e vou acreditar para o resto de minha vida, nesta verdade que minha mãe me ensinou: 
Com cada ano velho, se vão as nuvens de nossos dias, 
com suas lutas, seus ensinamentos e lembranças, carregadas de passado... 
Daí, o céu se ilumina para o grande espetáculo das estrelas, 
e aquele novo céu, lindo e brilhante anuncia o Ano Novo, 
com as novas esperanças, os novos sonhos e novas oportunidades para ser feliz!