segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Por que é que tem que se arrebentar a fibra?




Decididamente, a morte não é legal. Ainda mais quando é morte de gente jovem, de gente querida, de gente famosa, de gente que tem um monte de coisa para fazer na vida... Morte é triste, é inesperada, é trágica, é nó na garganta, é dor que dói tanto e de tanto doer endoidece, emudece, entristece! É uma piada de muito mau gosto. É o “gran finale” de um espetáculo que não tinha a menor intenção de acabar. Pra que apagarem as luzes no amanhecer da aurora ou ainda no auge do meio dia da vida? Ainda vai lá, D. morte, quando tu chegas é já se faz penumbras naquela existência e assim mesmo, reclamamos e dizemos: “- fulano, coitado, tinha tanto pra viver”... Nunca deixarei de achá-la cruel e má. Minha vó morreu com 96 anos, mas como sei de várias avós que morreram com mais de 100, achei uma sacanagem a minha ter sido levada por ti antes do centenário dela. Nunca a acharei bela e jamais farei versos que lhe traduzam doçura. O “Quando em meu peito rebentar-se a fibra”[1] é inimaginável quando se há um universo de sonhos, de expectativas, de projetos, de coisas pra se fazer lá em casa. Nada é mais ultrajante do que dizer que chegou a sua hora, quando se está na hora de resplandecer. Quando há uma coletânea de inacabados por todas as partes: um álbum no Facebook pra se terminar, uma facul pra cursar, uma cerveja pra festejar, um rock pra combinar. Um Enem pra fazer, um beijo pra acontecer, um problema pra resolver, um novo dia pra nascer. Há pessoas pra curtir, carnaval pra sacudir, viagens pra ir, relações pra discutir. Músicas para compor - Vida para viver - pessoas para amar – gostos para sentir.
Morte: insana, desvairada, insensível, fugaz, ridícula, injusta, pérfida, ignóbil, intransigente. Inegociável. Irremediável. Decididamente, sem graça.

Fabíola Sampaio – 12/09/2011


[1] Lembranças de Morrer – Álvares de Azevedo, disponível em http://www.revista.agulha.nom.br/avz4.html#lembranca . Acesso: 12 set 2011.

Nenhum comentário:

Postar um comentário